
Nossas primeiras experiências com inteligência artificial costumam produzir um fenômeno que passei a chamar de “pico do deslumbramento”. Muitos de nós já passamos, ou ainda passaremos, por isso. A ferramenta nos explica conceitos complexos em segundos, dá estrutura a ideias ainda dispersas, identifica relações entre informações e entrega textos que talvez levassem horas para serem produzidos.
Depois de algumas respostas convincentes, começamos a imaginar a IA aplicada a quase tudo o que fazemos. O problema começa quando nossa atenção deixa de acompanhar a construção do raciocínio e se concentra apenas no espetáculo do resultado.
Esse deslumbramento não nasce apenas da qualidade das respostas. A própria experiência de interação contribui para isso. O LLM (large language model) está sempre disponível, adapta-se ao nosso vocabulário, acompanha nosso ritmo e quase sempre encontra alguma coisa para nos entregar. A sensação de fluência pode ser confundida não apenas com domínio do assunto, mas também com a impressão de que fomos plenamente compreendidos.
Toda essa interação proporciona uma experiência intelectualmente confortável. Talvez confortável demais.
Em vez de observar como o problema foi formulado, quais premissas foram adotadas e por que determinada conclusão foi alcançada, passamos apenas a acompanhar a máquina agir.
Nossa produção pode aumentar enquanto parte do esforço cognitivo diminui. E isso pode parecer aprendizagem.
Mas compreender uma resposta enquanto a lemos não significa saber reconstruir aquele raciocínio, identificar suas fragilidades ou chegar a uma conclusão diferente. Obter uma boa resposta, compreender essa resposta e ser capaz de responder por ela são capacidades diferentes.
Nesse ponto, o pico do deslumbramento pode produzir um “vale da aprendizagem”: quanto mais impressionados ficamos com a capacidade da IA, menos participamos intelectualmente daquilo que estamos fazendo.
Em geral, celebramos tecnologias que eliminam fricções. E com razão: ninguém precisa preservar etapas burocráticas apenas para continuar ocupado.
Mas algumas dificuldades preliminares não são desperdício de tempo. Formular uma pergunta, tentar recuperar uma informação, confrontar hipóteses e perceber que ainda não compreendemos são partes do próprio processo de aprendizagem.
A IA pode eliminar tanto o esforço improdutivo quanto o esforço necessário para construir compreensão. Distinguir um do outro passa a ser parte do trabalho intelectual.
Quando essa falta de compreensão ultrapassa a experiência individual e o resultado é entregue a outras pessoas, o problema assume uma dimensão organizacional. O trabalho intelectual que deixou de ser realizado não desaparece, apenas é transferido para quem precisa interpretar, verificar ou refazer o conteúdo. Esse tipo de produção já recebeu um nome: workslop.
O termo descreve conteúdos produzidos com IA que têm aparência de trabalho concluído, mas não oferecem substância suficiente para fazer a tarefa avançar: relatórios extensos, mas vazios; apresentações impecáveis que não conduzem a uma conclusão lógica; e textos bem escritos que transferem para outra pessoa o esforço de compreender, verificar ou refazer o trabalho.
Isso me lembra as mensagens de um amigo que responde às minhas perguntas com a simples transcrição dos outputs de seu ChatGPT genérico.
O workslop não nasce apenas de uma ferramenta que falhou. Também pode nascer de um usuário que, deslumbrado com o resultado, deixou de participar do raciocínio que o produziu, mas logo em seguida apresenta aquele conteúdo como seu.
A maturidade no uso dos modelos de linguagem começa quando deixamos de ser espectadores deslumbrados pela aparência de compreensão e deliberação de suas respostas.
Isso não significa executar manualmente todas as etapas. Significa saber quais podem ser delegadas e quais precisam permanecer sob supervisão intelectual humana.
A IA pode pesquisar, organizar, comparar, sugerir formulações e questionar premissas. Mas cabe ao ser humano compreender o problema, verificar o resultado e assumir a decisão.
O objetivo não é pensar menos porque temos a IA. É aprender a pensar melhor com ela.
Você já percebeu se ainda está no pico do deslumbramento ou se começou a atravessar o vale da aprendizagem?